HISBA- Aula 8

IV. Sociedade, Cultura e Cotidiano: A Vibrante Salvador Setecentista

O século XVIII foi um período de efervescência social e cultural em Salvador, onde a riqueza econômica e as complexas dinâmicas demográficas se manifestaram em um desenvolvimento urbano notável, uma arquitetura opulenta e um sincretismo religioso profundo.

 

Desenvolvimento Urbano e Arquitetura

 

O século XVIII representou o apogeu histórico de Salvador como capital, tornando-a uma das cidades mais belas e bem fortificadas do mundo. A cidade cresceu significativamente, expandindo-se ao longo da Baía de Todos os Santos, alcançando a Península Itapagipana ao Norte e a Vila do Pereira ao Sul, e ampliando-se em direção às colinas do Leste, atingindo Mouraria, Santana e Nazaré. A expansão da cidade fora dos muros foi impulsionada pela fixação de ordens religiosas católicas com suas igrejas e conventos.

A arquitetura colonial baiana, especialmente em Salvador, é marcada pelo estilo barroco, com exemplos notáveis como a Igreja e Convento de São Francisco, no Pelourinho, ricamente decorada com ouro, sendo uma obra-prima da arte sacra. A Igreja Nosso Senhor do Bonfim, cuja construção teve início entre 1745 e 1746, com obras internas finalizadas em 1754 e externas (torres) em 1772, apresenta estilos neoclássico e rococó. Engenheiros militares desempenharam um papel crucial como os principais arquitetos profissionais da América Portuguesa nesse período, traçando plantas, delineando prospectos e dirigindo obras civis. A descrição de Salvador como “grandioso e agradável” , com suas numerosas igrejas, sugere um ambiente urbano altamente religioso e visualmente opulento. Essa grandeza arquitetônica servia não apenas como expressão espiritual, mas também como símbolo do poder colonial português e da riqueza extraída da colônia.

 

Sincretismo Religioso e Manifestações Culturais

 

A Bahia no século XVIII foi um caldeirão de culturas, especialmente devido à forte presença de africanos de diversas etnias, como os iorubás, que trouxeram o candomblé. Isso resultou em um profundo sincretismo religioso, onde as práticas católicas se fundiram com as religiões de matriz africana. A Igreja Nosso Senhor do Bonfim, cuja construção se iniciou em 1745, é um dos maiores centros da fé católica e, ao mesmo tempo, um ponto máximo do sincretismo, com a imagem do Senhor do Bonfim sendo identificada com Oxalá.

A Festa da Lavagem do Bonfim, que começou em 1773 quando a “irmandade dos devotos leigos” fez com que os escravos lavassem a igreja como parte dos preparativos para a festa do Senhor do Bonfim, evoluiu para uma tradição que une catolicismo e candomblé. Durante a lavagem, as portas da igreja permanecem fechadas enquanto as baianas despejam água nos degraus e no adro ao som de toques e cânticos africanos. Após a abolição da escravatura, a lavagem deixou de ser vista como uma obrigação de trabalho pelos negros, passando a ser uma obrigação religiosa. Outro exemplo é a Festa de Santa Bárbara, que, desde o século XVII, celebra a santa que no sincretismo é representada pela orixá Iansã. O sincretismo religioso não foi apenas um fenômeno cultural, mas uma estratégia de resistência e sobrevivência para as populações africanas escravizadas e seus descendentes. Ao “disfarçar” suas divindades e rituais sob a roupagem católica, eles conseguiram preservar e transmitir sua herança cultural e espiritual, criando uma identidade religiosa única que desafiava a imposição cultural colonial.

 

Vida Intelectual e Artística

 

Salvador, como capital, abrigava centros de saber como os Estudos Gerais do Colégio dos Jesuítas, que funcionavam como uma universidade, e um curso de formação de engenheiros militares no Forte de São Pedro. Essa efervescência intelectual contribuía para a circulação de ideias, inclusive as iluministas, que seriam cruciais para movimentos emancipacionistas. A cidade contava com intelectuais e artistas que atuavam na Bahia, contribuindo para uma rica cena cultural e artística.

A obra de José Antônio Caldas, “A Noticia Geral desta Capitania” (1759), é um exemplo de rico documentário descritivo da época, com plantas e desenhos detalhados de Salvador e seus arredores, de grande importância para a História da Civilização Brasileira no período colonial. A presença de figuras como o comandante francês Antoine René Larcher na cidade em 1787 facilitou o contato de intelectuais baianos, como Cipriano Barata, com novas ideias, tornando-se agentes de uma cultura política contraposta à do absolutismo. A existência de uma vida intelectual e artística vibrante em Salvador, evidenciada pelos centros de ensino e pela produção de obras, sugere que a Bahia não era apenas um centro de produção econômica, mas também um polo de pensamento e cultura. A circulação de ideias “à margem do controle oficial” e o contato com influências externas indicam que a sociedade baiana estava exposta e receptiva a novos conceitos, incluindo os que desafiavam o

status quo colonial.

V. A Conjuração Baiana (1798-1799): O Grito por Liberdade e Igualdade

O final do século XVIII na Bahia foi palco de um dos mais significativos movimentos de contestação colonial no Brasil: a Conjuração Baiana, também conhecida como Revolta dos Alfaiates ou Revolta dos Búzios. Este levante, ocorrido em Salvador entre 1798 e 1799, distinguiu-se por seu caráter popular e suas radicais demandas sociais e políticas.

 

Contexto de Insatisfação e Crise

 

O final do século XVIII em Salvador foi marcado por uma grave crise social e econômica. A população, especialmente as camadas mais pobres, sofria com a falta de alimentos e os preços altíssimos, tornando itens básicos como a carne inacessíveis. Essa situação de fome e miséria havia contribuído para diversas rebeliões menores, como o ataque de uma multidão a escravos que transportavam carne em 1797, resultando no roubo da carga. A transferência da capital para o Rio de Janeiro em 1763 também contribuiu para a insatisfação, ao diminuir a importância política e econômica de Salvador, gerando descontentamento tanto nas elites locais quanto na população em geral. A Conjuração Baiana não foi um evento isolado, mas a culminação de décadas de insatisfação social e econômica, onde a fome e a carestia atuaram como catalisadores diretos para a mobilização popular, conferindo ao movimento um caráter de urgência e uma base social mais ampla do que outros levantes coloniais.

 

Influências Ideológicas e Revolucionárias

 

A Conjuração Baiana foi fortemente influenciada pelos ideais iluministas, que ganharam força com a Revolução Francesa. Contudo, um fator de influência crucial e distintivo foi o processo de independência do Haiti, iniciado em 1791. Este evento serviu de exemplo e inspiração, especialmente para os escravos, que se rebelaram contra a dominação francesa e conquistaram a emancipação. As metrópoles tentaram impedir a circulação dessas notícias, temendo que suas colônias seguissem o mesmo caminho, mas elas chegaram à Bahia. A Inconfidência Mineira (1789-1792) também é citada como um precedente, embora com diferenças significativas no caráter e nos objetivos.

A influência da Revolução Haitiana conferiu ao levante baiano um caráter radical de abolição da escravidão e igualdade racial , elementos que eram temidos pelas elites coloniais e metropolitanas e que explicam a severidade da repressão. A circulação de ideias revolucionárias, apesar das tentativas de censura, demonstrava a permeabilidade das colônias às correntes intelectuais e políticas globais, as quais eram capazes de catalisar movimentos de grande impacto social.

 

Características e Objetivos do Movimento

 

A Conjuração Baiana foi uma conspiração de caráter separatista e republicano, descoberta pelas autoridades locais em 1798. Diferentemente da Inconfidência Mineira, foi um movimento de caráter popular, defendendo a independência da Bahia, o estabelecimento de um governo republicano e democrático com liberdades plenas, o livre comércio, a abertura dos portos, salários maiores para os soldados e, crucialmente, a abolição da escravidão e mais igualdade racial. O caráter popular e as reivindicações sociais e raciais da Conjuração Baiana a distinguem marcadamente de outros movimentos emancipacionistas da elite colonial. A demanda por abolição da escravidão e igualdade racial refletia a composição social dos participantes e a influência direta da Revolução Haitiana, tornando-a um precursor vital para as lutas por direitos humanos e justiça social no Brasil.

Tabela 2: Comparativo: Conjuração Baiana vs. Inconfidência Mineira

AspectoConjuração Baiana (Revolta dos Alfaiates/Búzios)Inconfidência Mineira
Período

1798-1799

1789-1792

Local

Salvador, Bahia

Minas Gerais
Caráter

Popular, com grande adesão das camadas mais pobres

Elitista, com participação de intelectuais e membros da elite local

Líderes/Participantes

Alfaiates, soldados, sapateiros, bordadores, ex-escravos e escravos

Intelectuais, clérigos, militares e proprietários rurais (elite)
Principais Objetivos

Independência da Bahia, república, abolição da escravidão, igualdade racial, liberdades plenas, livre comércio, abertura dos portos, salários maiores para soldados

Independência, república, mas geralmente sem abolição da escravidão
Influências

Iluminismo, Revolução Francesa, Independência do Haiti

Iluminismo, Independência dos EUA

Causas Sociais/Econômicas

Grave crise social e econômica, fome, falta de alimentos, altos preços

Cobrança da Derrama (imposto sobre o ouro), insatisfação com o controle metropolitano
Desfecho

Repressão militar, prisão e execução dos líderes

Repressão, prisão e execução (Tiradentes)
Legado

Marco da história afro-brasileira, luta pela liberdade e igualdade

Símbolo da luta pela independência do Brasil

Líderes e Participantes

 

O movimento teve grande participação de pessoas das camadas populares, o que lhe conferiu o nome de Revolta dos Alfaiates, devido à profissão de seus principais líderes. Além de alfaiates, participaram soldados, sapateiros, bordadores, ex-escravos e escravos. Os principais líderes executados foram os soldados Luís Gonzaga das Virgens (36 anos) e Lucas Dantas (23 anos), e os alfaiates João de Deus Nascimento (27 anos) e Manuel Faustino dos Santos Lira (22 anos). Esses quatro mártires foram oficialmente incluídos no Livro dos Heróis da Pátria em 2011, um reconhecimento tardio de sua importância histórica.

O movimento também é conhecido como Revolta dos Búzios. Este termo tornou-se predominante na transmissão oral na Bahia devido à associação com as origens africanas e à luta contra a escravidão e por uma sociedade mais igualitária. Alguns participantes usavam um búzio (concha de molusco) preso a uma pulseira para facilitar a identificação entre si. A predominância de participantes das camadas populares e a origem do nome “Revolta dos Búzios” são indicativos de uma profunda conexão do movimento com as raízes africanas e a cultura afro-brasileira. A escolha do búzio como símbolo de identificação transcende a mera praticidade, carregando um significado cultural e espiritual que reforça o caráter popular e a luta por igualdade racial e liberdade, tornando-a um marco na história afro-brasileira.

 

A Conspiração e a Repressão

 

A Conjuração Baiana teve início em 12 de agosto de 1798, quando muitos participantes do movimento foram para as ruas distribuir panfletos e divulgar os ideais da revolta. Contudo, um dos revoltosos acabou delatando a organização do movimento para as autoridades baianas. Militares, seguindo as ordens do governo, foram para as ruas e casas para prender os líderes e principais envolvidos na revolta.

O Tribunal da Relação da Bahia desempenhou um papel central na repressão, conduzindo as investigações (“devassas”) e os julgamentos. Em 1799, os rebeldes foram julgados e os líderes condenados à morte por enforcamento e esquartejamento na Praça da Piedade, em Salvador. A repressão foi dura, mas, dos mais de 30 indiciados, apenas os quatro líderes citados foram punidos com a pena de morte. A rápida e brutal repressão da Conjuração Baiana e o papel do Tribunal da Relação demonstram a determinação da Coroa em esmagar qualquer movimento que ameaçasse a ordem colonial, especialmente um com demandas tão radicais como a abolição da escravidão. A delação e a seletividade das execuções sugerem a eficácia da rede de inteligência colonial e a estratégia de punir exemplarmente os líderes para desmobilizar o movimento, enquanto outros, talvez de classes sociais mais elevadas, eram poupados.

 

Legado e Reconhecimento

 

A Conjuração Baiana é um importante marco da história afro-brasileira por vários motivos. Suas lutas por liberdade e cidadania, pensadas por homens negros desde o século XVIII, são reconhecidas como a primeira proposta de luta por liberdade e cidadania do país. O legado da Revolta dos Búzios é indiscutivelmente o da liberdade, especialmente para os milhões de africanos e seus descendentes que viviam na Bahia colonial sem quaisquer direitos humanos respeitados. Os quatro líderes executados – Manoel Faustino, Luís Gonzaga, João de Deus e Lucas Dantas – foram oficialmente incluídos no Livro dos Heróis da Pátria em 4 de março de 2011, um reconhecimento tardio de sua importância histórica.

O reconhecimento póstumo dos líderes da Conjuração Baiana como “Heróis da Pátria” e a valorização de seu papel na história afro-brasileira demonstram uma reinterpretação da história oficial. Essa reescrita da história, impulsionada por movimentos sociais e acadêmicos, busca dar voz e protagonismo a grupos historicamente marginalizados, ressaltando a relevância duradoura dos ideais de liberdade e igualdade que a Conjuração Baiana representou. As homenagens e o reconhecimento contínuo desses mártires contribuem para que o povo conheça suas origens e as lutas de seus ancestrais, evitando a repetição de erros de discriminação.

VI. Conclusão: O Século XVIII como Fundamento para a Bahia Moderna

O século XVIII foi um período de intensas transformações e complexidades para a Bahia, moldando profundamente sua trajetória histórica e cultural. De uma capital proeminente e rica, centro do Império Português no Brasil, Salvador experimentou um declínio político com a transferência da capital para o Rio de Janeiro em 1763. A economia, embora ainda baseada no açúcar e tabaco, buscou diversificação com a mineração de ouro e diamantes, enfrentando desafios de fiscalização e contrabando. A expulsão dos jesuítas em 1759 marcou a consolidação do regalismo e o controle metropolitano sobre as instituições coloniais.

 

A Interconexão entre os Fatores Econômicos, Políticos e Sociais

 

Os eventos do século XVIII na Bahia demonstram uma intrínseca interconexão entre as esferas econômica, política e social. A busca por novas riquezas minerais levou à reorientação da política colonial, exemplificada pela transferência da capital, o que, por sua vez, impactou a economia local e exacerbou as tensões sociais, manifestadas pela fome e miséria. Essas tensões, somadas à circulação de ideias revolucionárias e ao exemplo da Independência do Haiti, culminaram na Conjuração Baiana, um movimento que, mais do que político, foi um grito por justiça social e racial. O sincretismo religioso, por sua vez, reflete a resiliência cultural das populações africanas e afrodescendentes diante da opressão, evidenciando a capacidade de adaptação e apropriação cultural em um contexto de dominação. A Conjuração Baiana, portanto, não pode ser compreendida isoladamente, mas como o ápice de um século de transformações e tensões acumuladas, sendo o resultado direto da interação entre as políticas metropolitanas, as dinâmicas econômicas e as realidades sociais, catalisadas por influências ideológicas externas.

 

O Legado do Século XVIII na Formação da Identidade Baiana e Brasileira

 

O século XVIII lançou as bases para a identidade baiana moderna, caracterizada por sua rica diversidade cultural, seu profundo sincretismo religioso e sua história de resistência e luta por liberdade. A Conjuração Baiana, em particular, deixou um legado duradouro de busca por igualdade e justiça social, influenciando movimentos posteriores e sendo, hoje, um símbolo da luta afro-brasileira. A arquitetura barroca e as tradições religiosas ainda hoje testemunham a opulência e a complexidade desse período, servindo como marcos visíveis de uma era de grandes contrastes e profundas transformações. Os eventos do século XVIII na Bahia não são meros fatos históricos, mas elementos fundadores da identidade cultural e política da região e, por extensão, do Brasil. O legado da resistência, do sincretismo e da busca por igualdade perdura, tornando o estudo desse período essencial para compreender as raízes de questões sociais e culturais contemporâneas.